IA 22 de setembro de 2026 · 13 min de leitura

Jornais americanos processam OpenAI e Microsoft por plágio

O Seattle Times e o Newsday abriram um processo contra a OpenAI e a Microsoft na Justiça dos Estados Unidos. A acusação é usar artigos jornalísticos para treinar inteligência artificial sem permissão. A briga pode redefinir quem é dono do conteúdo que ensina as máquinas.

RW

Rafael Willians

Fundador, Clube dos Cisnes

Jornais americanos processam OpenAI e Microsoft por plágio
  • O Seattle Times e o Newsday, dois jornais dos Estados Unidos, processaram a OpenAI e a Microsoft na Justiça americana, segundo o The Verge.
  • A acusação é que as empresas usaram reportagens desses jornais para treinar a inteligência artificial sem pedir autorização nem pagar.
  • O caso se soma a uma onda de ações abertas por veículos de imprensa desde 2023, quando o The New York Times entrou na Justiça contra as mesmas empresas.
  • No centro da disputa está uma pergunta simples: de quem é o texto que ensina o ChatGPT e o Copilot a escrever?
  • A decisão pode encarecer o uso de IA, mudar como você recebe notícia e definir se o jornalismo será pago pelas máquinas.

Dois jornais dos Estados Unidos levam a OpenAI e a Microsoft ao tribunal

O Seattle Times, tradicional jornal da cidade de Seattle, e o Newsday, um dos maiores diários da região de Nova York, entraram com um processo contra a OpenAI, dona do ChatGPT, e a Microsoft, dona do Windows e principal sócia da OpenAI. De acordo com o The Verge, site americano especializado em tecnologia, os jornais afirmam que suas reportagens foram usadas para treinar sistemas de inteligência artificial dessas empresas sem qualquer permissão. Inteligência artificial, aqui, é o nome dado a programas que aprendem a partir de enormes quantidades de texto para depois responder perguntas e escrever sozinhos.

Você pode achar que uma briga entre jornais americanos e gigantes de tecnologia não tem nada a ver com o seu dia. Tem, e muito. A mesma inteligência artificial que aprendeu lendo esses jornais é a que responde dentro do ChatGPT que você abre no celular, a que resume notícias e a que pode, um dia, entregar a informação pronta sem você precisar clicar em nenhum site. Se a Justiça decidir que treinar IA com conteúdo dos outros precisa ser pago, o preço e o formato de tudo isso muda para todo mundo, inclusive no Brasil.

Não estamos diante de um episódio isolado. É mais um capítulo de uma disputa que já dura anos e que começa a chegar à mesa dos juízes. O resultado vai muito além de Seattle e de Nova York.

O que o Seattle Times e o Newsday estão acusando exatamente?

Os dois jornais acusam a OpenAI e a Microsoft de copiar e reaproveitar suas reportagens, sem licença, para construir e melhorar produtos de inteligência artificial. Em outras palavras, o trabalho pago de repórteres teria virado matéria-prima gratuita para treinar máquinas que hoje concorrem com esses mesmos jornais.

O mecanismo da acusação é direto. Para um programa de IA aprender a escrever bem, ele precisa ler muito, e boa parte desse material vem da internet aberta, onde estão as notícias. Segundo o The Verge, os jornais sustentam que esse uso não foi autorizado nem remunerado, e que os sistemas chegam a reproduzir trechos parecidos com os textos originais quando respondem a certas perguntas.

Imagine que você escreve um livro de receitas e passa meses testando cada prato. Aí uma empresa copia o livro inteiro, ensina um robô de cozinha a repetir suas receitas e passa a vender esse robô. Você não recebeu nada, e ainda perdeu clientes para a máquina. É essa a lógica da queixa: o valor foi extraído sem consentimento e sem divisão de lucro.

Vale um cuidado importante. Uma acusação em processo é a versão de um lado. A OpenAI e a Microsoft ainda vão apresentar defesa, e nada foi decidido. O que existe, por enquanto, é uma disputa formal que agora corre na Justiça.

Como uma inteligência artificial aprende lendo notícias?

A inteligência artificial aprende observando padrões em milhões de textos, e não decorando cada frase como um cofre. Ela lê tanto conteúdo que passa a prever qual palavra costuma vir depois da outra, e assim aprende a escrever de forma parecida com o que leu.

Pense num jardim. Você joga muitas sementes de qualidade na terra, rega todos os dias e, com o tempo, nascem plantas fortes. O texto jornalístico é a semente de melhor qualidade nesse jardim, porque é escrito com apuração, revisão e responsabilidade. Sem sementes boas, o jardim cresce fraco. Por isso o conteúdo de jornais é tão cobiçado por quem treina IA.

Esse processo de aprendizado é chamado de treinamento. É a etapa em que o modelo de IA, ou seja, o programa que gera as respostas, consome grandes bibliotecas de texto para formar sua base de conhecimento. O problema levantado pelos jornais é que parte dessas sementes foi retirada do jardim deles sem pedir licença.

Há um detalhe que muita gente ignora. Outras empresas do setor já se movem para dar mais rastreabilidade ao que a IA produz, como quando a Anthropic decidiu marcar os textos gerados pelo Claude. Isso mostra que a própria indústria já entende que a origem do conteúdo virou um assunto sério, e não um detalhe técnico.

Por que isso afeta você que lê notícia no celular?

Afeta porque o jornalismo custa dinheiro para existir, e a IA aprendeu de graça com ele. Se os jornais deixarem de ter receita, produzem menos reportagem, e sobra menos informação de qualidade para você, para o ChatGPT e para qualquer assistente que você use.

Hoje, quando você pergunta algo a uma IA, muitas vezes recebe a resposta pronta e nem visita o site que fez a apuração original. O jornal perde a visita, perde o anúncio e perde a assinatura. É como se você comesse todo dia na casa de um restaurante que nunca cobra a conta: cedo ou tarde, o restaurante fecha as portas.

Esse deslocamento já está em curso e muda a forma como as pessoas encontram informação. Vale entender melhor como a inteligência artificial muda a sua busca na internet, porque o hábito de digitar uma dúvida e receber um resumo pronto está substituindo o velho clique em vários links.

Para o leitor brasileiro, o efeito é duplo. Se o modelo de pagar pelo conteúdo se firmar lá fora, ele pode chegar aqui e valorizar quem produz informação séria. Mas, no curto prazo, também pode encarecer os serviços de IA, já que as empresas precisariam repassar o custo das licenças para o usuário final.

Isso é a mesma coisa que copiar e colar um texto?

Não é exatamente igual, e é justamente aí que mora a disputa jurídica. Copiar e colar é reprodução literal. O treinamento de IA é um processo em que o texto é digerido para gerar padrões, o que abre uma brecha para as empresas argumentarem que não houve cópia no sentido tradicional.

A defesa mais provável das empresas de tecnologia se apoia em uma ideia conhecida nos Estados Unidos como uso justo, que permite aproveitar parte de uma obra sem autorização em situações específicas, como estudo, crítica ou transformação criativa. Elas tendem a dizer que treinar um modelo é uma transformação, e não uma cópia. Os jornais respondem que o resultado compete diretamente com eles, o que descaracteriza o uso justo.

Esse tipo de embate não é novo para a OpenAI, que acumula frentes na Justiça. A empresa, por exemplo, também enfrentou um processo movido pela Apple por suposto roubo de segredos comerciais, o que mostra que o gigante da IA vive hoje cercado de brigas legais em várias direções.

No fundo, a pergunta que os tribunais vão responder é filosófica e prática ao mesmo tempo. Aprender com um texto é diferente de copiá-lo? Um estudante que lê mil livros e escreve o seu não está plagiando. Uma máquina que faz o mesmo em escala industrial, e depois lucra com isso, está na mesma situação? A resposta ainda não existe, e é ela que vai valer bilhões.

Já aconteceu antes? O que a onda de processos desde 2023 revela?

Sim, já aconteceu, e o caso do Seattle Times e do Newsday é parte de um movimento maior. Desde 2023, veículos de imprensa vêm processando empresas de IA, com destaque para a ação do The New York Times contra a própria OpenAI e a Microsoft, aberta no fim daquele ano.

A linha do tempo ajuda a entender o tamanho da mudança. O ChatGPT foi lançado ao público em novembro de 2022 e virou fenômeno em poucos meses. Logo ficou claro para as redações que aquela ferramenta tão fluente só era possível porque havia aprendido com bilhões de páginas, muitas delas produzidas por jornalistas. A reação veio em forma de processo.

Desde então, o setor se dividiu em dois caminhos. Alguns veículos preferiram negociar e fechar acordos de licenciamento, recebendo para ceder seu conteúdo de forma legal. Outros, como agora o Seattle Times e o Newsday, escolheram a via judicial para forçar um preço e um precedente. É a diferença entre alugar a casa por um valor combinado e processar quem entrou sem pagar.

Essa multiplicação de ações tem um peso estratégico. Cada novo processo aumenta a pressão para que o Judiciário americano finalmente estabeleça uma regra clara. Enquanto isso não acontece, cada empresa aposta na sua leitura da lei, e o setor inteiro opera numa zona cinzenta que não interessa a ninguém no longo prazo.

O que muda para a imprensa e para a IA nos próximos meses?

No curto prazo, muda a pressão por acordos, e não necessariamente a tecnologia. Cada processo novo empurra as empresas de IA para a mesa de negociação, porque um único julgamento desfavorável pode custar caro e servir de exemplo para todos os outros casos.

Para a imprensa, abre-se a chance de transformar o próprio arquivo em fonte de receita. Um jornal com décadas de reportagens tem um acervo valioso para treinar máquinas, e licenciar esse material pode virar uma nova entrada de dinheiro num setor que sofre há anos com a queda de anúncios. É uma reviravolta: o que antes era só custo passa a ser ativo.

Para as empresas de IA, o cenário aponta para modelos mais caros de operar. Se pagar pelo conteúdo de treinamento virar regra, o custo de fazer uma inteligência artificial de ponta sobe, e isso pode reforçar a vantagem das poucas empresas que já têm dinheiro para bancar essas licenças. Ou seja, uma decisão pensada para proteger a imprensa pode, sem querer, concentrar ainda mais poder nas mãos das gigantes.

E para você, o efeito prático aparece aos poucos. Assistentes de IA podem começar a citar mais as fontes e a mandar você de volta para os sites originais, algo que já se desenha como tendência. Isso seria bom para o jornalismo e para a qualidade da informação que chega até o seu celular.

No Clube dos Cisnes, entendemos que este processo não é sobre dois jornais: é sobre quem paga a conta do conhecimento que alimenta a inteligência artificial que você usa de graça.

Na leitura do Clube dos Cisnes: por que esta ação pesa mais do que parece

Na nossa leitura, o processo do Seattle Times e do Newsday marca o momento em que a discussão deixa de ser sobre tecnologia e passa a ser sobre economia da informação. A pergunta central não é se a IA é boa, e sim quem sustenta financeiramente o material que a torna útil. Quando essa conta não fecha, quem produz conteúdo de qualidade some, e a própria IA fica mais pobre com o tempo.

Nossa previsão é que os grandes acordos de licenciamento vão se tornar o caminho principal, e os processos servirão de alavanca para negociar preço. Poucos casos chegarão a um julgamento final, porque tanto os jornais quanto as empresas de tecnologia têm mais a perder com uma sentença ruim do que com um acordo. O tribunal é a arma, mas o objetivo real é sentar para negociar valores.

Aqui entra um ponto que raramente aparece nas manchetes e que interessa direto a quem tem um negócio pequeno no Brasil. Atendemos recentemente, em um caso ilustrativo, um pequeno comércio que mantinha um blog com textos próprios sobre seus produtos e descobriu que assistentes de IA respondiam dúvidas usando aquele conteúdo, sem nunca mandar o cliente ao site. O dono perdia visitas sem entender o motivo. A lição vale para qualquer PME: o texto que você publica hoje pode estar treinando máquinas amanhã.

Por experiência do Clube dos Cisnes, é uma estimativa nossa, não um dado de terceiros, que blindar minimamente o conteúdo de um pequeno negócio, com regras de acesso, marcação de autoria e revisão de termos de uso do site, custa pouco em dinheiro e cabe em cerca de um a três dias de trabalho de quem cuida do site. É barato perto do risco de ver seu material virar resposta gratuita de um concorrente automático. Para quem quer se destacar nesse novo jogo, entender como continuar sendo original na era da inteligência artificial deixou de ser luxo e virou defesa.

A implicação prática para o Brasil é clara. As regras que estão sendo desenhadas lá fora vão chegar aqui, e o dono de negócio que tratar seu conteúdo como um bem, e não como enfeite, sai na frente quando o assunto virar lei também no nosso mercado.

Este processo, portanto, é menos uma briga distante e mais um ensaio do futuro. Ele vai ajudar a decidir se a informação de qualidade continua valendo a pena para quem a produz.

No fim das contas, a máquina só é tão boa quanto o que a alimenta, e alguém sempre paga pela comida. A pergunta que este processo coloca sobre a mesa é quem vai pagar, e a sua notícia de amanhã depende dessa resposta.

Perguntas frequentes

Por que o Seattle Times e o Newsday estão processando a OpenAI e a Microsoft?

Porque, segundo o The Verge, os dois jornais afirmam que suas reportagens foram usadas para treinar a inteligência artificial dessas empresas sem permissão nem pagamento. Eles alegam que o trabalho pago de seus jornalistas virou matéria-prima gratuita para produtos que hoje concorrem com a própria imprensa. As empresas ainda vão se defender e nada foi decidido.

Usar textos da internet para treinar IA é ilegal?

Ainda não há uma resposta fechada, e é exatamente isso que os tribunais americanos estão discutindo. As empresas de IA argumentam que o treinamento é um uso transformador, parecido com aprender, e não uma cópia. Os jornais dizem que o resultado compete com eles e por isso deveria ser pago. A decisão vai criar um precedente importante.

Esse processo pode encarecer o ChatGPT e outros serviços de IA?

Pode. Se pagar pelo conteúdo de treinamento virar regra, o custo de manter uma IA de ponta aumenta, e parte disso tende a ser repassada ao usuário. Por outro lado, o resultado também pode melhorar a qualidade das respostas e fazer os assistentes citarem mais as fontes originais.

Isso afeta pequenos negócios e sites brasileiros?

Sim, de forma indireta e crescente. O conteúdo que qualquer site publica pode ser usado para treinar IA, e as regras discutidas nos Estados Unidos tendem a influenciar o Brasil. Quem trata o próprio conteúdo como um bem, com marcação de autoria e termos de uso claros, fica mais protegido quando o tema virar lei também aqui.

Fontes

  1. The Verge

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Tags: IA Clube dos Cisnes PME
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