IA 16 de setembro de 2026 · 10 min de leitura

Como ser original na era da inteligência artificial

O professor Alexandre Chiavegatto Filho publicou no Estadão uma coluna sobre como ser original quando qualquer pessoa pode gerar texto com um clique. A questão deixou de ser filosófica: ela decide quem se destaca e quem vira só mais um. No Clube dos Cisnes, entendemos que originalidade virou um ativo de renda.

RW

Rafael Willians

Fundador, Clube dos Cisnes

Como ser original na era da inteligência artificial
  • A inteligência artificial, o programa de computador que produz texto imitando padrões que já viu, copia o previsível, mas não copia a sua experiência de vida.
  • O ChatGPT chegou ao público em novembro de 2022 e, desde então, milhões de pessoas passaram a escrever de um jeito parecido.
  • Ser original hoje não é escrever bonito: é ter um ponto de vista que a máquina não teria como adivinhar.
  • Na leitura do Clube dos Cisnes, a originalidade deixou de ser luxo de artista e virou vantagem prática de quem quer ganhar dinheiro.

Quem levantou a questão da originalidade e por que ela mexe com você

Alexandre Chiavegatto Filho, professor e pesquisador de ciência de dados, escreveu uma coluna no Estadão com um título direto: como ser original na era da inteligência artificial. O texto parte de uma inquietação simples. Se a máquina agora escreve, resume e cria em segundos, o que sobra de valor no que uma pessoa faz?

Isso não é papo de especialista distante da sua rotina. Se você manda mensagens no trabalho, faz uma legenda para vender no Instagram, escreve um currículo ou monta uma proposta para um cliente, você compete com quem usa IA. E quem só entrega o que a máquina também entregaria tende a valer menos. A pergunta do professor, no fundo, é sobre o seu lugar.

Por isso vale parar cinco minutos para entender o assunto. Não para virar escritor, mas para não ser confundido com um robô que qualquer um liga de graça.

O que a inteligência artificial realmente faz quando parece 'criar'?

A inteligência artificial não inventa do nada: ela calcula qual é a próxima palavra mais provável com base em tudo que já leu. É importante entender isso, porque muda tudo. Quando o ChatGPT escreve um parágrafo, ele não teve uma ideia. Ele apostou na sequência mais comum.

Pense na função do teclado do celular que sugere a próxima palavra. Você digita 'bom' e ele oferece 'dia'. A IA generativa, o tipo de programa que produz texto e imagem sob demanda, é essa mesma lógica levada ao extremo, treinada com bilhões de frases da internet. Ela é ótima no que é frequente e fraca no que é raro.

Aí está o detalhe que muita gente ignora. Se a máquina busca sempre o mais provável, ela empurra todo mundo para o meio, para o texto médio, para a frase que já foi escrita mil vezes. É como um cozinheiro que só sabe repetir o prato mais pedido do cardápio: nunca erra feio, mas também nunca surpreende ninguém. Já mostramos que esses textos deixam rastros, e você pode aprender a reconhecer os padrões que denunciam um texto feito por inteligência artificial.

Ou seja: a IA é excelente para o comum e limitada para o inesperado. E o inesperado costuma ser exatamente onde mora a originalidade.

Por que tanta gente começou a soar igual depois que a IA chegou?

Porque milhões de pessoas passaram a usar a mesma ferramenta, treinada nos mesmos dados, puxando para o mesmo tom. Desde novembro de 2022, quando o ChatGPT abriu ao público, e-mails, posts e textos escolares foram ficando com um ar de família. Todos corretos, todos parecidos, todos meio sem graça.

Imagine um bairro onde, de repente, todas as casas contratam a mesma empresa de reforma. Em um ano, as fachadas ficam quase idênticas. Foi isso que aconteceu com a escrita. A ferramenta é boa, mas quando todo mundo usa igual, o resultado vira paisagem, e ninguém repara na paisagem.

A coluna de Alexandre Chiavegatto Filho no Estadão aponta para esse efeito de padronização. Quanto mais gente terceiriza o pensamento para a máquina, mais raro fica o texto que tem cara de gente. E o que é raro tende a valer mais, seja num currículo, seja numa vitrine digital.

Há um paralelo histórico útil aqui. Quando surgiram os modelos prontos de site e os textos genéricos de catálogo, todo comércio online começou a se parecer. Quem se destacou não foi quem tinha o modelo mais bonito, e sim quem colocou a própria voz na descrição do produto. A história se repete, agora com a escrita inteira.

O que separa uma pessoa criativa de um algoritmo bem treinado?

A diferença é a vivência: a máquina reorganiza o que já existe, enquanto a pessoa traz o que só ela viveu. A IA não perdeu um emprego, não criou um filho, não levou um cano de cliente, não sentiu medo na véspera de abrir um negócio. Você sentiu. Essa bagagem é matéria-prima que nenhum treinamento reproduz.

Criatividade humana, na prática, é cruzar coisas que não costumam andar juntas. É o pedreiro que explica engenharia usando futebol. É a manicure que entende de gente porque ouve histórias o dia todo. A máquina combina o provável; a pessoa combina o improvável, porque viveu o improvável.

Pense também no julgamento. A IA não sabe o que importa de verdade para o seu cliente daquela rua, naquela cidade, com aquela dor específica. Você sabe, porque conhece o contexto. Esse senso de 'o que faz sentido aqui e agora' é uma forma de inteligência que não vem de dados, vem de convivência.

Não é por acaso que discutimos em outro texto o que a inteligência artificial simplesmente não consegue copiar de você. O resumo é este: ela imita o resultado, não a origem.

Como cultivar um estilo próprio que a IA não consiga copiar?

O caminho é usar a máquina como ajudante e não como autora: deixe a IA fazer o trabalho pesado e reserve para você a parte que só você tem. Isso começa com uma escolha simples: parar de pedir que ela pense por você e passar a pedir que ela organize o que você já pensou.

Um jeito prático é o método do rascunho invertido. Primeiro você anota, com suas palavras, a sua opinião, o seu caso real, a sua conclusão. Só depois você pede à IA para revisar a forma. Assim a ideia continua sendo sua, e a máquina só limpa a estrada. É o contrário do que a maioria faz, que é pedir tudo pronto e apenas trocar uma vírgula.

Cultivar estilo é como cuidar de um jardim. Ninguém acorda com um canteiro florido: você planta, rega todo dia, tira o mato e espera. A sua voz de escrita funciona igual. Ela aparece quando você escreve com frequência sobre o que conhece, erra, corrige e volta. A IA pode ser o regador, mas a semente é sua.

Vale ainda alimentar o repertório fora da tela. Conversar com gente diferente, prestar atenção em histórias, guardar frases que ouviu no ponto de ônibus. É desse acervo pessoal que sai o detalhe que a máquina jamais teria. Para quem quer unir as duas coisas, mostramos as ferramentas de IA que ajudam você a se destacar no trabalho sem apagar a sua identidade.

Na era da inteligência artificial, original não é quem escreve mais bonito, é quem pensa o que a máquina não teria como adivinhar.

Qual é o erro mais comum de quem usa IA para criar?

O erro mais comum é acreditar que velocidade é qualidade e entregar o primeiro texto que a máquina cospe. Rápido não é sinônimo de bom. E o público, mesmo sem saber explicar, sente quando algo tem cheiro de fábrica.

Pense numa novela. O que prende não é a trama perfeita, é o personagem que soa verdadeiro, com jeito próprio de falar, com defeitos que a gente reconhece. Texto sem voz é como novela sem personagem: tecnicamente funciona, mas ninguém se apega. Quando você publica algo genérico, você vira figurante do seu próprio negócio.

Há um segundo erro, mais silencioso. Muita gente vai perdendo o hábito de pensar porque a máquina pensa primeiro. É comodismo perigoso. Quanto menos você exercita a própria cabeça, mais dependente e mais substituível você fica. A ferramenta que era para libertar acaba prendendo.

Esse ponto conversa direto com o futuro do trabalho no país. Já analisamos como a inteligência artificial deve mudar a rotina dos profissionais brasileiros, e a conclusão é sempre a mesma: some quem repete, sobra quem interpreta.

A leitura do Clube dos Cisnes: originalidade virou vantagem de renda

No Clube dos Cisnes, a nossa tese é direta: a originalidade saiu do campo da arte e entrou no campo do dinheiro. Enquanto a IA baixa o preço de tudo que é comum, ela sobe, por contraste, o valor de tudo que é raro e humano. Quem entender isso primeiro larga na frente.

Fazemos uma previsão para os próximos meses. Vamos ver uma enxurrada de conteúdo genérico feito por máquina, e o público vai cansar rápido. Quando o mercado se enche do igual, o diferente fica caro. Assim como o feito à mão voltou a ter valor depois da produção em massa, o texto com voz própria vai se tornar um selo de qualidade, não um detalhe.

Deixamos uma estimativa da CDC, baseada na nossa experiência acompanhando pequenos negócios, e não um dado verificado de terceiros: a maior parte do que um pequeno comércio publica hoje poderia ter sido escrita por qualquer concorrente com o mesmo aplicativo de IA. O custo de mudar isso é quase zero em dinheiro e alto em disciplina, porque exige o dono parar dez minutos por dia para colocar a própria opinião no texto.

Um exemplo ilustrativo, hipotético, do tipo de situação que costumamos ver: imagine uma pequena confeitaria de bairro que trocava as legendas genéricas de bolo por pequenas histórias reais, como o pedido de última hora que salvou um aniversário. Não é sobre a receita, é sobre a cena que só aquele dono viveu. É esse tipo de detalhe que a máquina não teria de onde tirar, e é exatamente ele que faz o cliente escolher uma loja em vez de outra.

Para a pequena e média empresa brasileira, a implicação prática é clara. Use a IA para ganhar tempo na parte chata, o rascunho, a correção, a formatação. Mas guarde para você a decisão do que dizer, a opinião e a história. Terceirizar a execução é inteligente; terceirizar a alma do negócio é entregar o que você tem de mais difícil de copiar.

No fim, a máquina não veio para roubar a sua voz. Ela veio para provar, no susto, o quanto essa voz sempre valeu.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial vai acabar com a criatividade humana?

Não. A IA reproduz padrões que já existem, mas não tem vivência própria para gerar o inesperado. Ela ameaça o trabalho repetitivo e genérico, não a criação que nasce de experiência, opinião e contexto pessoal. Quem usa a máquina como apoio, e não como substituta, tende a criar mais e melhor.

Como ser original mesmo usando o ChatGPT no dia a dia?

Comece pensando você mesmo: anote sua opinião, seu caso real e sua conclusão antes de abrir a ferramenta. Depois use a IA só para revisar a forma, organizar e corrigir. Assim a ideia continua sua, e a máquina apenas ajuda a lapidar. O erro é pedir tudo pronto e publicar sem colocar nada de você.

Dá para perceber quando um texto foi feito por inteligência artificial?

Muitas vezes, sim. Textos de IA costumam ser corretos, mas neutros, sem opinião forte, sem histórias pessoais e com estrutura previsível. Faltam detalhes concretos que só quem viveu a situação conheceria. Quanto mais genérico e sem voz, maior a chance de ter saído de uma máquina.

Fontes

  1. Estadão

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Tags: IA Clube dos Cisnes PME
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