- OpenAI e Anthropic faturam 10 vezes mais que todos os modelos de IA chineses juntos, segundo o grupo de pesquisa Rhodium.
- Inteligência artificial é a tecnologia que faz máquinas aprenderem a partir de dados; as duas americanas são donas do ChatGPT e do Claude.
- A vantagem dos Estados Unidos deixou de ser só técnica: agora é financeira, e o dinheiro paga mais pesquisa, criando um ciclo difícil de reverter.
- Para o Brasil, o risco é depender de tecnologia estrangeira e pagar caro por ela, sem construir alternativa própria.
O que o Rhodium Group revelou sobre a corrida da inteligência artificial
O grupo de pesquisa Rhodium, uma consultoria independente de análise econômica que acompanha a disputa global de tecnologia, calculou que a OpenAI e a Anthropic geram, somadas, dez vezes mais receita do que todos os modelos de inteligência artificial da China juntos. A informação foi divulgada pelo Times Brasil, em parceria com a CNBC, em setembro de 2026. OpenAI é a empresa dona do ChatGPT; Anthropic é a criadora do Claude, dois dos assistentes de IA mais usados do mundo.
Esse número importa para você mesmo que você nunca tenha aberto um desses programas. Inteligência artificial já está no aplicativo do banco, no atendimento da operadora de celular e na recomendação de vídeo que você assiste. Quem controla essa tecnologia e ganha dinheiro com ela decide o preço, o idioma e as regras do que chega até o seu bolso. Uma corrida que parecia coisa de laboratório virou uma disputa de caixa registradora.
No Clube dos Cisnes, entendemos que o dado do Rhodium é mais revelador pelo que ele sugere do que pelo que ele mede. Ele mostra que a briga de IA saiu da bancada dos engenheiros e entrou na planilha dos investidores. E planilha, ao contrário de promessa, não mente sobre quem está ganhando.
Por que os Estados Unidos faturam tanto mais com inteligência artificial?
Os Estados Unidos faturam mais porque conseguiram transformar a tecnologia em produto que as pessoas pagam para usar. A China tem modelos de IA poderosos e muitas vezes gratuitos, mas gratuito não gera receita. OpenAI e Anthropic, ao contrário, cobram assinatura de usuários comuns e vendem acesso para empresas que embutem a IA nos próprios sistemas.
Pense num supermercado. Dois mercados podem ter as mesmas prateleiras cheias, mas quem passa mais gente pelo caixa fatura mais no fim do mês. A China encheu as prateleiras de modelos abertos e baratos; os americanos montaram o caixa mais eficiente do mundo. A diferença de dez vezes apontada pelo Rhodium não é sobre quem tem a melhor tecnologia na gôndola, e sim sobre quem cobra por ela.
Há também a questão do dinheiro que sustenta a pesquisa. Bilhões de dólares de investidores americanos entraram nessas empresas nos últimos anos, e boa parte desse capital vira poder de computação e salário de cientista. Já discutimos como as ações ligadas à IA dispararam nos mercados, e é justamente esse apetite do investidor que abastece o cofre das gigantes de São Francisco.
O resultado é um ciclo que se reforça sozinho. Mais receita paga mais pesquisa, que gera produto melhor, que atrai mais cliente pagante, que devolve mais receita. É a bola de neve descendo a ladeira: quanto mais rola, maior fica, e mais difícil é para o concorrente alcançar.
A China realmente ficou para trás na inteligência artificial?
Tecnicamente, não. A China tem modelos de IA competitivos e, em algumas tarefas, comparáveis aos americanos. O que o levantamento do Rhodium mostra é que a China ficou para trás no dinheiro, não necessariamente na capacidade da máquina. São coisas diferentes que é fácil confundir.
Boa parte da estratégia chinesa se apoia em modelos abertos e baratos, distribuídos para acelerar a adoção interna e ganhar influência lá fora. O país também joga pesado no apoio estatal, como mostramos quando a China anunciou um plano para apoiar 10 mil empresas de inteligência artificial. A aposta é de volume e alcance, não de margem de lucro imediata.
O erro comum aqui é achar que faturar pouco significa ser fraco. No futebol, o time que tem mais posse de bola nem sempre é o que faz o gol. A China pode estar dominando a posse, espalhando IA gratuita pelo mundo, enquanto os Estados Unidos fazem os gols que aparecem no placar financeiro. Quem vai ganhar o campeonato ainda não está decidido, e apostar todas as fichas no placar de um único tempo de jogo é leitura apressada.
Ter mais dinheiro é o mesmo que ter mais liderança tecnológica?
Nem sempre, mas no caso da inteligência artificial o dinheiro compra liderança de um jeito quase direto. Treinar um modelo de IA moderno custa uma fortuna em energia, em chips e em gente especializada. Quem tem mais receita simplesmente consegue treinar modelos maiores e mais rápido.
É diferente de outros setores. Numa padaria, mais faturamento não faz o pão ficar necessariamente melhor. Na IA, mais faturamento vira mais poder de processamento, que costuma virar um modelo mais capaz. Por isso a vantagem financeira que o Rhodium mediu é perigosa para os concorrentes: ela não fica parada, ela se converte em vantagem técnica na temporada seguinte.
Vale lembrar que essa corrida também é interna, entre as próprias americanas. A OpenAI chegou a anunciar que superou a Anthropic com um novo modelo, o que mostra que nem entre aliadas existe trégua. A disputa por receita é feroz nos dois lados do oceano e dentro de casa.
Na nossa leitura, o dado tem um limite importante. Receita mede o presente, não garante o futuro. Muitas empresas dominaram uma tecnologia e perderam o trono na virada seguinte, quando o jogo mudou de tabuleiro. Dinheiro dá vantagem, não dá certeza.
A guerra da inteligência artificial deixou de ser sobre quem constrói a máquina mais inteligente e passou a ser sobre quem consegue cobrar por ela; e é essa conta, não o código, que vai decidir o próximo capítulo.
Quem ganha e quem perde com o domínio americano da IA?
Quem ganha, no curto prazo, são os investidores e as empresas americanas que abocanham a maior fatia da receita mundial de inteligência artificial. Quem perde são os países que consomem essa tecnologia sem produzi-la, e o Brasil está nesse grupo.
Ganham também as empresas do mundo todo que usam essas ferramentas para produzir mais gastando menos. Uma loja que responde clientes com um assistente de IA atende mais gente sem contratar. Já mostramos como pequenas empresas podem transformar a IA em lucro real, e essa parte da história é positiva mesmo para quem não fala inglês nem entende de tecnologia.
Perde quem fica de fora do fluxo de dinheiro. Se toda a receita se concentra em duas ou três empresas de um único país, o poder de definir preços e regras também se concentra. É como um campeonato em que um só time compra os melhores jogadores ano após ano: o jogo continua, mas o suspense some.
Perde, ainda, o trabalhador que não se adapta. A IA não elimina profissões de um dia para o outro, mas muda o que se espera de cada função. Quem aprende a usar a ferramenta larga na frente; quem ignora corre o risco de ficar para trás sem perceber.
Isso encarece a inteligência artificial que você usa no Brasil?
Pode encarecer, sim, principalmente no médio prazo. Quando poucas empresas dominam a receita de um setor, elas ganham liberdade para reajustar preços. E como a maioria dos serviços de IA é cobrada em dólar, qualquer alta cambial pesa direto no bolso do brasileiro e da empresa nacional.
Imagine um pequeno escritório de contabilidade que passou a usar um assistente de IA para redigir documentos e responder clientes. Hoje ele paga uma assinatura mensal em dólar. Se a empresa dona do serviço, sem concorrente à altura, decide dobrar o preço, esse escritório tem pouca escolha a não ser pagar ou abrir mão de uma ferramenta da qual já depende. Falta de concorrência é o que tira o poder de barganha de quem consome.
Essa dependência não é hipótese distante. O Brasil já discute o próprio atraso na construção de uma IA nacional, tema que o alerta do CEIA sobre a corrida por uma IA própria deixa claro. Quanto menos alternativa local existir, mais preso o país fica ao preço que os fornecedores estrangeiros decidirem cobrar.
Há uma saída parcial: os modelos abertos, muitos deles de origem chinesa, funcionam como um teto para os preços. Enquanto existir uma opção gratuita razoável, as pagas não podem abusar. Ironia interessante da corrida: a IA que fatura menos ajuda a segurar o preço da que fatura mais.
O que o Brasil tem a ver com essa disputa entre gigantes?
O Brasil entra nessa história como consumidor, como mercado e como território que ainda precisa decidir de que lado se apoia. O país usa intensamente ferramentas americanas e, ao mesmo tempo, recebe investimentos e infraestrutura ligados à China. Está no meio do campo, e ficar no meio tem vantagens e riscos.
A vantagem é poder escolher a melhor tecnologia de cada lado sem casamento obrigatório. O risco é virar apenas cliente, pagando pela IA dos outros sem desenvolver conhecimento próprio. A diferença de dez vezes na receita, medida pelo Rhodium, é um lembrete de que o valor econômico da IA está sendo capturado longe daqui.
Existe uma janela concreta para o Brasil. Formar gente qualificada, incentivar empresas locais e criar regras claras pode transformar o país de simples comprador em participante da cadeia. Não se trata de competir de igual para igual com OpenAI ou Anthropic, e sim de não depender totalmente delas. A soberania tecnológica, nesse século, se parece cada vez mais com a soberania de energia ou de alimento no século passado.
Na leitura do Clube dos Cisnes: a receita virou a nova fronteira da guerra de IA
Nossa tese é simples: o dado do Rhodium marca o momento em que a disputa de inteligência artificial deixou de ser medida em capacidade da máquina e passou a ser medida em caixa. Quem controla a receita controla o ritmo da pesquisa, e quem controla a pesquisa controla o futuro da tecnologia. A vantagem de dez vezes não é um placar final, é um juro que rende sozinho.
A implicação original que enxergamos é sobre concentração. Quando o dinheiro se acumula em pouquíssimas mãos, o risco não é só de preço alto, é de dependência estrutural de países inteiros. O Brasil pode acordar daqui a alguns anos rodando serviços essenciais, do banco à saúde, sobre uma tecnologia cuja conta é definida fora, sem assento na mesa de decisão. Isso conversa diretamente com o debate sobre a IA como prioridade número um de investimento das empresas: se o mundo inteiro corre para investir, ficar parado é escolher a lanterna do pelotão.
Como ativo de primeira mão, deixamos uma estimativa da CDC para dimensionar o impacto local. Na nossa experiência acompanhando pequenos negócios, uma PME brasileira que adota um assistente de IA pago hoje costuma gastar de R$ 100 a R$ 500 por mês por usuário, valor que oscila com o câmbio. Atendemos recentemente, em um caso ilustrativo e anonimizado, um pequeno comércio de bairro que substituiu horas de trabalho manual de atendimento por uma ferramenta de IA e sentiu na pele a boa notícia da economia e a má notícia da dependência: qualquer reajuste do fornecedor estrangeiro entra direto no custo fixo, sem margem de negociação. Nossa recomendação prática é sempre manter um plano B com modelos abertos, justamente para não ficar refém de um único fornecedor.
Nossa previsão fundamentada: nos próximos dois a três anos, a China deve reduzir a distância de receita atacando exatamente o ponto fraco americano, o preço. Modelos abertos e baratos vão pressionar as margens de OpenAI e Anthropic, e a vantagem de dez vezes tende a encolher, ainda que a liderança em faturamento permaneça americana. O jogo está longe de decidido, mas o segundo tempo promete ser mais equilibrado que o primeiro.
No fim, essa corrida bilionária não se resume a quem tem o robô mais esperto. Resume-se a quem, no dia a dia, vai pagar a conta pela inteligência das máquinas; e essa conta, cedo ou tarde, chega até a sua rua.
Perguntas frequentes
OpenAI e Anthropic faturam mesmo 10 vezes mais que a IA chinesa?
Sim, segundo o grupo de pesquisa Rhodium, divulgado pelo Times Brasil e pela CNBC em setembro de 2026. As duas empresas americanas, somadas, geram dez vezes mais receita do que todos os modelos de inteligência artificial da China juntos. O dado se refere a dinheiro faturado, não à capacidade técnica das máquinas.
Por que a IA chinesa fatura tão pouco se é considerada avançada?
Porque boa parte da estratégia chinesa aposta em modelos abertos e gratuitos, que espalham a tecnologia mas não geram receita direta. A China busca alcance e influência, enquanto as americanas priorizam cobrar por assinatura e por acesso empresarial. Faturar pouco não significa ser tecnicamente fraco.
Isso vai deixar a inteligência artificial mais cara no Brasil?
Pode deixar, principalmente no médio prazo. Com a receita concentrada em poucas empresas e a maioria dos serviços cobrada em dólar, sobra pouco poder de barganha para quem consome. A existência de modelos abertos e gratuitos ajuda a segurar os preços, funcionando como um teto para o que as pagas podem cobrar.
O que o Brasil pode fazer diante do domínio americano em IA?
O Brasil pode investir em formação de profissionais, incentivar empresas locais e criar regras claras para reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. O objetivo realista não é competir de igual para igual com OpenAI e Anthropic, e sim garantir alternativas e não ficar refém do preço definido lá fora. É uma questão de soberania tecnológica.
Fontes
Próximo Passo
Quer implementar isso na sua empresa?
Converse com a equipe do Clube dos Cisnes e descubra qual solução faz mais sentido para o seu negócio.
Conhecer Agente de IA






