IA 20 de setembro de 2026 · 12 min de leitura

Globo tira do ar comercial com IA após críticas do público

A Globo retirou do ar um comercial produzido com inteligência artificial. A reação negativa do público nas redes sociais foi tão grande que a emissora recuou. O caso mostra um limite claro para o uso da tecnologia na propaganda.

RW

Rafael Willians

Fundador, Clube dos Cisnes

Globo tira do ar comercial com IA após críticas do público
  • A Globo tirou do ar um comercial produzido com inteligência artificial após forte repercussão negativa, segundo o Sou Mais Pop.
  • A crítica se espalhou rapidamente pelas redes sociais, e a pressão levou a emissora a recuar.
  • O caso repete um padrão já visto no mundo: grandes marcas que testam propaganda feita com IA e voltam atrás diante da rejeição do público.
  • O problema central não foi a tecnologia em si, mas a sensação de que o anúncio parecia artificial e distante das pessoas.

Globo recua e tira do ar comercial feito com inteligência artificial

A Globo exibiu um comercial criado com o uso de inteligência artificial, a tecnologia que permite a um computador gerar imagens, vozes e cenas sem filmagem tradicional. De acordo com o Sou Mais Pop, o público reagiu mal e as críticas se espalharam pelas redes sociais em pouco tempo. Sob pressão, no dia 5 de setembro de 2026 a emissora decidiu tirar o anúncio do ar.

Isso importa para você mesmo que você não trabalhe com publicidade. A televisão ainda entra na casa de milhões de brasileiros todos os dias. Quando a maior emissora do país testa e depois recua de um anúncio feito por máquina, o assunto deixa de ser técnico e passa a mexer com uma pergunta simples: o que a gente aceita ver na tela e o que a gente rejeita.

Na nossa leitura, o episódio é pequeno no tamanho, mas grande no significado. Ele mostra que existe uma linha invisível de aceitação, e que o público sabe exatamente onde ela fica, mesmo sem entender de tecnologia.

Por que o público brasileiro rejeitou o comercial com IA?

O público rejeitou o comercial porque sentiu que ele era artificial demais, e não porque odeia tecnologia. A reação, segundo o Sou Mais Pop, foi rápida e negativa o suficiente para fazer a Globo voltar atrás. Isso raramente acontece com uma peça publicitária comum.

Pense numa comida requentada no micro-ondas. A aparência engana, mas o gosto entrega que algo ali não é fresco. Um comercial gerado por inteligência artificial pode ter esse mesmo efeito: as imagens até funcionam à primeira vista, mas o olho humano percebe pequenas estranhezas, um sorriso que não fecha direito, um cenário liso demais, um movimento que não convence. O incômodo vem antes mesmo de a pessoa saber explicar o motivo.

Há também uma camada de valor em jogo. Quando uma empresa grande troca atores, figurantes, fotógrafos e cenógrafos por um programa de computador, parte do público entende isso como economia às custas de quem vive de criar. Não é um debate técnico, é um debate sobre trabalho e sobre respeito com quem assiste. Já tratamos desse desconforto ao discutir como manter a originalidade na era da inteligência artificial, e ele reaparece com força aqui.

Por fim, existe a questão da confiança. A publicidade vende com base em identificação. Se o anúncio parece fabricado por máquina, a promessa da marca soa vazia. O recuo da Globo mostra que essa desconfiança, quando vira barulho coletivo, pesa mais do que qualquer economia de produção.

Como uma propaganda feita com inteligência artificial é produzida?

Uma propaganda com IA nasce de instruções em texto, e não de uma câmera apontada para o mundo real. Em vez de contratar equipe, montar cenário e filmar, o anunciante descreve o que quer e um programa gera as imagens e sons a partir desse pedido.

Funciona mais ou menos como fazer um bolo com um robô de cozinha programado. Você não mistura os ingredientes com a mão: você escolhe a receita, aperta os botões e a máquina entrega o resultado. A vantagem é a velocidade. O que antes levava semanas de produção pode sair em horas. A desvantagem é a padronização, porque a máquina tende a repetir os mesmos padrões que aprendeu, e o resultado pode ficar genérico, sem o toque que só a mão humana dá.

Esse tipo de conteúdo se multiplica rápido, e nem sempre com qualidade. Não à toa, vídeos e peças automáticas de baixa qualidade já viraram um problema à parte, como mostramos quando falamos sobre o excesso de material feito por IA poluindo a informação. A facilidade de produzir em massa é justamente o que derruba a média de qualidade.

No caso da Globo, o problema não foi a ferramenta, foi o resultado exposto no horário nobre. Uma coisa é usar IA nos bastidores para ganhar tempo. Outra é colocar na tela algo que o público reconhece na hora como artificial. A tecnologia entregou rápido, mas entregou um produto que não passou no teste do olhar humano.

Já vimos grandes marcas recuarem de anúncios com IA antes?

Sim, e mais de uma vez. O caso da Globo não é isolado: ele se encaixa num padrão que vem se repetindo no mundo desde que a inteligência artificial ficou barata e acessível para gerar imagens. Empresas de peso testam a novidade, encaram a rejeição e recuam.

O exemplo mais lembrado é o da Coca-Cola, que em 2024 lançou um comercial de Natal produzido com inteligência artificial e foi duramente criticada nas redes. Parte do público achou o resultado sem alma, frio, distante daquele clima afetivo que a própria marca construiu por décadas. A reação virou notícia mundial. É exatamente o mesmo enredo que agora aparece no Brasil com a Globo.

Esse tipo de repetição não é coincidência. Quando uma tecnologia nova fica fácil de usar, muita gente corre para adotá-la ao mesmo tempo, antes de o público estar pronto. Aconteceu com efeitos especiais exagerados no cinema, aconteceu com músicas com correção de voz artificial. A plateia leva um tempo para decidir o que aceita, e nesse intervalo quem se apressa demais leva o tombo.

A lição histórica é clara. A ferramenta chega antes da aceitação social. E quem confunde o que é tecnicamente possível com o que o público está disposto a engolir acaba recolhendo o próprio anúncio, como fez a Globo.

Quem ganha e quem perde quando uma emissora usa IA na publicidade?

Quem ganha, no curto prazo, é o anunciante que corta custos, e quem perde é a cadeia de profissionais que vive de produzir propaganda de verdade. Mas o caso da Globo mostra que essa conta pode se inverter rápido quando o público entra em cena.

Do lado de quem economiza, a promessa é sedutora. Menos diárias de filmagem, menos equipe, menos tempo. Numa lógica de supermercado, é como trocar a marca tradicional pela mais barata da prateleira para gastar menos no fim do mês. Funciona enquanto ninguém percebe a diferença no carrinho.

Do lado de quem perde, estão atores, modelos, diretores, técnicos de som, iluminadores, uma cadeia inteira de gente cujo trabalho pode ser substituído por linhas de comando. Esse deslocamento não é abstrato: é renda que sai da mesa dessas famílias. É o mesmo debate que já levantamos ao analisar o futuro dos profissionais brasileiros diante da inteligência artificial, e ele não tem resposta simples.

Mas há um terceiro personagem, o público, que virou o fiel da balança. No episódio da Globo, foi a plateia que decidiu o resultado. A economia da emissora não valeu o desgaste de imagem. Quando a rejeição vira assunto nas redes, o barato sai caro, e o suposto vencedor termina como perdedor.

Isso significa que a inteligência artificial vai sumir dos comerciais de TV?

Não, a IA não vai sumir da publicidade, ela vai ficar mais discreta. O recuo da Globo não encerra o uso da tecnologia, apenas ensina onde ela ainda incomoda quando aparece escancarada.

O caminho mais provável é a IA migrar para os bastidores. Em vez de gerar a cena inteira, ela vai ajudar a acelerar tarefas invisíveis: testar versões de um roteiro, corrigir cores, montar rascunhos, traduzir campanhas. O espectador não percebe, e é justamente por isso que não reclama. O problema nunca foi a máquina trabalhar, foi a máquina aparecer no lugar da emoção humana.

Também é provável que surja algum tipo de sinalização. Assim como alimentos trazem no rótulo o que contêm, é possível que anúncios passem a indicar quando foram gerados por inteligência artificial. A transparência tende a reduzir o incômodo, porque tira a sensação de que o público está sendo enganado.

A tecnologia avança rápido, e o que hoje parece artificial pode convencer daqui a poucos meses. Mas a aceitação não é só uma questão de qualidade da imagem. É uma questão de confiança, e confiança se reconstrói devagar.

No Clube dos Cisnes, entendemos que o público não rejeita a inteligência artificial, ele rejeita ser tratado como quem não percebe a diferença.

O que muda para você que assiste TV e para quem cria conteúdo?

Para você que assiste, muda o nível de atenção: vale desconfiar quando uma cena parece perfeita demais ou estranhamente vazia. A partir de agora, é razoável esperar que uma parte crescente do que aparece na tela tenha alguma dose de inteligência artificial por trás.

Esse olhar treinado é uma defesa. A mesma tecnologia que gera comerciais também gera imagens falsas de pessoas reais, um risco que detalhamos ao mostrar como os deepfakes estão cada vez mais convincentes. Quem se acostuma a questionar o que vê na propaganda fica menos vulnerável a cair em golpes e boatos que usam o mesmo truque.

Para quem cria conteúdo, seja um pequeno negócio ou um produtor independente, o recado é diferente. A IA barateou a produção, mas o episódio da Globo prova que barato demais tem um custo escondido. O público perdoa um vídeo simples e honesto com mais facilidade do que uma peça polida que soa artificial.

A mudança prática começa agora, não no futuro. Quem usa essas ferramentas precisa decidir onde a máquina ajuda e onde ela atrapalha. E essa decisão, cada vez mais, passa pela reação de quem assiste, não pela vontade de quem produz.

Na leitura do Clube dos Cisnes: o recuo da Globo é um recado sobre confiança

Nossa tese é direta: o caso não foi uma derrota da inteligência artificial, foi uma vitória do senso crítico do público. A Globo recuou porque as pessoas perceberam a diferença e não gostaram de ser tratadas como se não fossem perceber. Esse é o dado mais importante da história, e ele não aparece em número nenhum.

A implicação original que enxergamos vai além do episódio. O verdadeiro ativo de qualquer marca hoje não é a velocidade de produção, é a confiança acumulada. Trocar essa confiança por economia de custo é como um restaurante tradicional passar a servir comida congelada para gastar menos: o cliente até demora a perceber, mas quando percebe, não volta. A Globo sentiu isso em tempo real, e por isso recolheu o anúncio.

Para trazer isso ao chão do pequeno e médio negócio brasileiro, vale um exemplo ilustrativo, hipotético, baseado na experiência do Clube dos Cisnes. Imagine um pequeno comércio de bairro que decide substituir todas as fotos reais dos seus produtos por imagens geradas por inteligência artificial para economizar. Pela nossa estimativa, e aqui falo de uma estimativa do Clube dos Cisnes, não de um dado verificado, a economia inicial pode parecer atraente, algo como algumas centenas de reais por mês em produção. Mas o cliente que chega à loja e vê que o produto real não bate com a foto perfeita da tela sente-se enganado, e a perda de confiança custa muito mais do que qualquer diária de fotógrafo economizada. O barato vira caro no relacionamento com o freguês.

Nossa previsão fundamentada: nos próximos meses, veremos marcas grandes usando IA cada vez mais nos bastidores e cada vez menos como estrela do comercial. A tecnologia vai se tornar invisível justamente porque, quando visível, ainda cobra um preço em confiança que poucas marcas podem pagar.

No fim das contas, a máquina pode imitar quase tudo, menos a sensação de que existe uma pessoa de verdade do outro lado. E é isso que o público defendeu ao rejeitar o comercial da Globo.

Perguntas frequentes

Por que a Globo tirou o comercial com inteligência artificial do ar?

Segundo o Sou Mais Pop, a Globo retirou o comercial após uma forte repercussão negativa do público. As críticas se espalharam rapidamente pelas redes sociais, e a pressão levou a emissora a recuar. O motivo central foi a rejeição das pessoas, que acharam o anúncio artificial demais.

Comerciais feitos com IA são proibidos na televisão?

Não, não existe proibição para comerciais feitos com inteligência artificial. O que aconteceu com a Globo foi uma decisão da própria emissora diante da reação do público, e não uma regra legal. A tendência é que o uso continue, porém de forma mais discreta e nos bastidores da produção.

Como saber se um comercial foi feito com inteligência artificial?

Nem sempre é possível ter certeza, mas há sinais. Imagens perfeitas demais, cenários lisos, movimentos estranhos e expressões que não convencem costumam denunciar o uso de IA. Com o tempo, é provável que surjam avisos indicando quando uma peça foi gerada por computador.

A inteligência artificial vai substituir atores e profissionais da publicidade?

A IA já substitui algumas tarefas, mas o caso da Globo mostra que existe um limite de aceitação do público. Profissionais criativos seguem sendo essenciais justamente para dar o toque humano que a máquina não entrega. O mais provável é a tecnologia virar ferramenta de apoio, e não substituta total.

Fontes

  1. Sou Mais Pop

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Tags: IA Clube dos Cisnes PME
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