- A inteligência artificial aprende copiando padrões de textos, imagens e dados que já existem, segundo o cientista de dados Alexandre Chiavegatto Filho, em coluna no Estadão.
- Como nenhuma IA passou pela sua vida, as suas experiências pessoais são a matéria-prima que a máquina não consegue reproduzir.
- Misturar conhecimentos de áreas diferentes gera as conexões inesperadas de onde nasce a criatividade.
- Fazer perguntas que ninguém fez ainda é, para o autor, o primeiro passo para ser original na era da IA.
- Na leitura do Clube dos Cisnes, a IA vira um chão comum: quem só repete o que ela faz perde valor; quem parte dela para criar o inédito ganha.
Quem disse que a originalidade é a nossa maior defesa contra a IA?
Foi o cientista de dados Alexandre Chiavegatto Filho, professor e pesquisador da área de ciência de dados, em uma coluna publicada no Estadão sobre como ser original na era da inteligência artificial. Inteligência artificial, aqui, é o nome dado a programas de computador que aprendem a fazer tarefas analisando montanhas de exemplos, em vez de seguir uma receita escrita à mão. O argumento central dele é simples e desconfortável ao mesmo tempo: a máquina é ótima em repetir o que já existe, e ruim em inventar o que ainda não existe.
Isso importa para qualquer brasileiro, e não só para quem trabalha com tecnologia. Desde que o ChatGPT ficou público, em novembro de 2022, virou fácil pedir a um programa que escreva um texto, faça um resumo ou desenhe uma imagem. Se a máquina faz isso de graça e em segundos, o que sobra de valor no que você produz? A resposta do autor é a originalidade. E entender de onde ela vem deixou de ser papo de artista para virar questão de emprego, de renda e de sobrevivência profissional.
Como a inteligência artificial realmente aprende a criar?
A IA aprende olhando para trás. Ela é alimentada com uma quantidade gigantesca de textos, fotos e dados já produzidos por seres humanos, e passa a identificar quais palavras, formas e ideias costumam aparecer juntas. Quando você pede algo, ela devolve a combinação mais provável com base nesses exemplos. É por isso que Chiavegatto Filho a descreve, em essência, como uma máquina de padrões do passado.
Pense na cozinha. Um cozinheiro que só decorou receitas consegue reproduzir mil pratos conhecidos com perfeição, mas trava quando falta um ingrediente e ninguém lhe deu a solução por escrito. A IA é esse cozinheiro de memória fenomenal: ela mistura sabores que já viram sucesso, mas não inventa um prato que nunca provou. Ela não sente fome, não tem saudade do tempero da avó, não erra por curiosidade.
Esse limite tem consequência prática. Quando milhões de pessoas usam a mesma ferramenta para escrever e criar, o resultado tende a convergir para um meio-termo previsível. Não por acaso, já existem métodos para reconhecer quando um conteúdo tem cara de máquina; nós mesmos exploramos isso no artigo sobre como textos de IA têm padrões que você pode identificar. Quanto mais gente terceiriza o pensamento para o programa, mais o mundo fica parecido consigo mesmo.
Por que as suas experiências valem mais do que qualquer banco de dados?
Porque nenhuma IA passou pelo que você passou. O programa leu bilhões de páginas, mas não perdeu um ônibus na chuva, não cuidou de um parente doente, não fechou uma venda difícil no fim do mês. As suas vivências não estão em nenhum banco de dados do planeta, e é exatamente isso que as torna sua maior vantagem, no argumento defendido no Estadão.
Imagine uma manicure que atende há vinte anos no mesmo bairro. Ela sabe, pela conversa, quando uma cliente está com problema em casa e precisa de um silêncio, e quando outra quer desabafar. Nenhum chatbot tem esse repertório, porque ele não veio de um curso: veio de duas décadas de gente real sentada na cadeira dela. Essa leitura fina do outro é conhecimento de primeira mão, e a máquina só tem conhecimento de segunda mão.
No futebol acontece o mesmo. Um sistema pode calcular a probabilidade de gol de cada jogada, mas foi um ser humano que inventou a bicicleta, o drible da vaca, a cavadinha na cobrança de pênalti. Essas jogadas nasceram de alguém que ousou fazer algo que a estatística dizia ser improvável. A IA descreve o que já foi feito; a coragem de fazer o inédito continua sendo nossa.
Há um recado direto para o mercado de trabalho nisso. As funções mais fáceis de automatizar são as puramente repetitivas, e as mais difíceis são as que dependem de julgamento, contexto e trato humano. É a mesma discussão que levantamos ao mostrar como empresas disputam quem a IA não consegue substituir.
O que significa, na prática, misturar áreas diferentes?
Significa juntar dois mundos que normalmente não se conversam, e é aí que a criatividade costuma aparecer. Chiavegatto Filho aponta as conexões inesperadas como um terreno fértil para a originalidade, porque a IA tende a manter cada assunto dentro da sua caixinha, do jeito que aprendeu.
Um exemplo do dia a dia: um professor de história que também entende de videogame pode criar uma aula em que os alunos revivem uma batalha antiga como se fosse um jogo. Sozinho, o conhecimento de história é comum; sozinho, o de games também. Juntos, viram algo que quase ninguém está fazendo daquele jeito. A novidade não estava em nenhuma das duas áreas, mas no encontro entre elas.
Isso vale para negócios pequenos. Um dono de padaria que aprende um pouco sobre redes sociais e passa a filmar o pão saindo do forno de madrugada não inventou a padaria nem inventou o vídeo curto. Ele cruzou as duas coisas e criou uma vantagem local que o concorrente da esquina não tem. Para quem quer dar esse passo e entender a ferramenta antes de cruzá-la com o próprio ofício, vale o nosso guia completo de como aprender inteligência artificial do zero.
Fazer perguntas novas ainda é tarefa humana ou a IA já faz isso?
Ainda é, em boa medida, tarefa humana, e essa é a parte mais provocativa da coluna do Estadão. A IA responde com maestria, mas ela não sente a inquietação de perguntar o que ninguém perguntou. Fazer a pergunta certa, aquela que ninguém tinha feito, é apontado como o primeiro passo para ser original na era da inteligência artificial.
Há uma diferença enorme entre pedir uma resposta e formular uma boa pergunta. Quem só pede respostas prontas fica refém do que a máquina já sabe. Quem sabe perguntar usa a ferramenta como uma alavanca para chegar mais longe. É como a diferença entre um aluno que copia a prova do colega e um que pergunta ao professor por que a conta funciona daquele jeito: um repete, o outro entende.
Esse ponto muda como devemos encarar a ferramenta no trabalho. A IA rende mais para quem chega com uma dúvida boa e um objetivo claro. Vale a pena, inclusive, aprender a conduzir esse diálogo com método, algo que detalhamos ao falar das ferramentas de IA que fazem você se destacar no trabalho. A máquina é o motor; a pergunta é o volante.
Quem ganha e quem perde nessa nova disputa?
Perde quem transforma o próprio trabalho em algo que a máquina já faz de graça, e ganha quem usa a máquina como ponto de partida para criar o que ela não alcança. Essa é a divisão que enxergamos por trás do texto de Chiavegatto Filho, e ela não respeita diploma nem idade.
Do lado dos que perdem estão as tarefas 100% repetitivas e sem toque pessoal: o texto padronizado, a arte genérica, o atendimento robotizado. Se o seu diferencial era fazer rápido algo comum, a IA faz mais rápido e mais barato. Aqui está a parte incerta que ninguém sabe medir com precisão ainda: quanto e quão rápido isso vai avançar nos próximos meses depende de decisões de empresas e de regulação que ainda estão em aberto.
Do lado dos que ganham está quem carrega uma marca pessoal difícil de copiar: a vivência, o estilo, a rede de contatos, a confiança construída com o tempo. Um pedreiro que documenta cada obra e ensina o vizinho a fazer um reparo simples cria uma reputação que nenhum aplicativo entrega pronta. A originalidade, nesse sentido, deixou de ser luxo criativo e virou uma forma concreta de proteção do próprio ganha-pão.
A inteligência artificial copia com perfeição tudo o que já foi feito; a única coisa que ela não consegue baixar de lugar nenhum é a vida que só você viveu.
A leitura do Clube dos Cisnes: originalidade virou estratégia de negócio, não vaidade
Na nossa leitura, o texto do Estadão acerta ao tratar originalidade como vantagem prática, e não como talento de poucos. No Clube dos Cisnes, entendemos que a IA está rebaixando a valor de mercado de tudo que é genérico e, ao mesmo tempo, elevando o preço do que é autêntico. Quanto mais barato fica produzir o comum, mais caro fica o raro.
A implicação original que a fonte não desenvolve é esta: pequenas e médias empresas brasileiras têm, aqui, uma vantagem que as gigantes não têm. Uma multinacional padroniza tudo para escalar; um pequeno negócio de bairro respira contexto local, gíria da região, história de família. Isso é combustível de originalidade que dinheiro nenhum compra rápido.
Damos um exemplo ilustrativo, hipotético, baseado no tipo de situação que costumamos observar. Imagine um pequeno restaurante que trocou as fotos genéricas de comida por vídeos curtos contando a história de cada receita herdada da família. Pela nossa estimativa de esforço, e isto é uma estimativa do Clube dos Cisnes, não um dado verificado, um dono conseguiria começar essa mudança investindo cerca de duas a quatro horas por semana e nenhum dinheiro além do próprio celular. O custo é de tempo e de coragem, não de tecnologia cara. A IA pode até ajudar a legendar o vídeo, mas a história da avó é o ativo que nenhum concorrente baixa da internet.
Nossa previsão fundamentada: nos próximos dois a três anos, a habilidade mais valorizada no mercado brasileiro não será operar a ferramenta, e sim ter algo verdadeiro para colocar nela. Saber usar IA vai virar tão básico quanto saber usar WhatsApp. O diferencial migrará para a pergunta, a vivência e o ponto de vista, exatamente os três pontos que a coluna do Estadão destaca.
A máquina já sabe tudo o que o mundo escreveu. O que ela ainda não sabe é o que você vai viver amanhã, e é disso que a sua próxima ideia original vai nascer.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial consegue ser criativa de verdade?
Ela consegue combinar de forma nova ideias que já existem, mas não cria a partir de uma vivência própria, porque não tem uma. Segundo o cientista de dados Alexandre Chiavegatto Filho, no Estadão, a IA aprende com padrões do passado. A originalidade profunda, que nasce de experiências reais e de perguntas inéditas, continua sendo humana.
Como posso ser original mesmo usando IA no meu trabalho?
Use a ferramenta como ponto de partida, não como resposta final. Traga a sua experiência, misture conhecimentos de áreas diferentes e faça perguntas que ninguém do seu ramo fez ainda. O valor está em juntar o que a máquina produz com aquilo que só você viveu.
A IA vai substituir o meu emprego?
O maior risco é para tarefas puramente repetitivas e sem toque pessoal, que a máquina faz mais rápido e mais barato. Funções que dependem de julgamento, contexto humano e relação de confiança são muito mais difíceis de automatizar. Investir no que é seu de verdade é a melhor proteção.
O que significa fazer perguntas novas na era da IA?
Significa deixar de apenas pedir respostas prontas e passar a formular dúvidas que ainda não foram exploradas. Quem sabe perguntar direciona a ferramenta para lugares novos, em vez de repetir o que todo mundo já obtém dela. É apontado por Chiavegatto Filho como o primeiro passo da originalidade.
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