IA 02 de outubro de 2026 · 12 min de leitura

Candidatos usam IA sem identificação nas eleições 2026

Um levantamento divulgado pela Agência Brasil aponta que candidatos estão usando inteligência artificial nas campanhas de 2026 sem revelar que o conteúdo foi gerado por máquina. A prática contraria a transparência que o TSE exige. Entenda o que isso muda para o seu voto.

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Rafael Willians

Fundador, Clube dos Cisnes

Candidatos usam IA sem identificação nas eleições 2026
  • Levantamento divulgado pela Agência Brasil aponta que candidatos usam inteligência artificial nas campanhas de 2026 sem identificar o conteúdo como gerado por IA.
  • Desde 2024 o TSE obriga as campanhas a rotular qualquer peça feita ou alterada por inteligência artificial, e proíbe por completo os deepfakes.
  • Conteúdo sem rótulo engana o eleitor e pode abrir caminho para desinformação, cassação de registro e multa.
  • Dá para desconfiar de peças com imagens perfeitas demais, vozes travadas e falas sem fonte verificável.

Candidatos usam IA e não contam ao eleitor: o que o levantamento mostrou

Um levantamento divulgado pela Agência Brasil mostra que candidatos nas eleições de 2026 vêm usando inteligência artificial para produzir material de campanha sem informar que o conteúdo foi gerado por máquina. Inteligência artificial, aqui, é a tecnologia que cria textos, imagens, áudios e vídeos a partir de comandos, imitando o trabalho humano. O problema central não é o uso da ferramenta. É o silêncio sobre ela.

Para o brasileiro comum, isso importa porque muda o que você vê no celular todos os dias durante a campanha. Aquele vídeo emocionante, aquele áudio do candidato, aquela imagem de uma obra pronta: parte disso pode ter saído de um programa, e não de uma câmera. Quando ninguém avisa, você toma decisão de voto com base em algo que talvez nunca tenha acontecido na vida real.

No Clube dos Cisnes, entendemos que essa é a primeira eleição geral em que a inteligência artificial deixa de ser novidade de laboratório e vira ferramenta de rotina nos comitês. E rotina sem regra clara é terreno fértil para abuso.

Por que esconder o uso de IA na campanha prejudica o seu voto?

Esconder o uso de IA prejudica o seu voto porque retira de você a informação mais básica: o que é real e o que é fabricado. Sem o rótulo, você não tem como separar o registro de um fato do que foi inventado por um programa para parecer fato.

Pense numa novela. Você sabe que aquilo é ficção, atores e roteiro, e por isso não confunde a traição do vilão com um crime de verdade. O aviso de que é ficção vem na própria natureza da novela. Na campanha, quando a IA cria uma cena e ninguém diz que é montagem, é como assistir a uma novela achando que é telejornal. A sua reação muda completamente.

O mecanismo do estrago é simples. Primeiro, a peça gerada por IA circula no WhatsApp e nas redes. Depois, as pessoas compartilham acreditando que é verdade. Por fim, quando a correção chega, o conteúdo já alcançou milhares de telas, e desmentir sempre viaja mais devagar do que a mentira. Já tratamos desse efeito ao mostrar como os vídeos falsos de candidatos já ameaçam as eleições de 2026.

O resultado prático é uma eleição decidida, em parte, por conteúdo que o eleitor não sabia ser artificial. Isso corrói a confiança em tudo, até no material honesto, porque a pessoa passa a duvidar de qualquer coisa que vê.

O que o TSE e a lei exigem sobre IA nas eleições de 2026?

O TSE, o Tribunal Superior Eleitoral que organiza e fiscaliza as eleições no Brasil, exige que toda peça de campanha feita ou alterada por inteligência artificial traga um aviso claro de que foi gerada por IA. Essa regra foi definida em resolução de 2024 e passou a valer já nas eleições municipais daquele ano, as primeiras do país com norma específica sobre o tema.

A exigência tem camadas. O candidato pode usar IA para editar uma imagem, melhorar um áudio ou criar uma arte, mas precisa informar isso de forma visível. Há, porém, uma linha que não pode ser cruzada: o deepfake, que é o vídeo ou áudio falso em que a tecnologia coloca uma pessoa dizendo ou fazendo algo que ela nunca disse nem fez. Esse tipo de conteúdo é proibido por completo, com rótulo ou sem rótulo.

As penas são pesadas. O uso irregular pode levar à retirada do conteúdo, à aplicação de multa e, nos casos mais graves, à cassação do registro ou do mandato do candidato. Para quem quiser o mapa completo do que é liberado e do que é punido, vale a leitura do nosso guia sobre IA nas eleições 2026: o que pode e o que é proibido.

O ponto que o levantamento da Agência Brasil expõe é o buraco entre a regra e a prática. A norma existe, é clara e prevê punição. Mesmo assim, há candidatos usando IA sem o aviso obrigatório. Regra no papel não se cumpre sozinha.

Como a inteligência artificial entra numa campanha, por dentro?

A inteligência artificial entra na campanha como uma equipe de produção que trabalha barato, rápido e sem descanso. Onde antes era preciso contratar fotógrafo, designer, locutor e editor de vídeo, hoje um único assessor com os programas certos faz quase tudo sozinho.

O passo a passo costuma ser assim. O assessor digita um comando descrevendo o que quer, por exemplo uma imagem do candidato cercado por eleitores numa praça. Em segundos, o programa devolve a cena pronta, com rostos, luz e cenário que nunca existiram. O mesmo vale para áudios que clonam a voz e para vídeos curtos sob medida para cada bairro ou público.

Esse é o lado que explica a tentação de não rotular. A peça fica tão realista que o aviso de IA quebraria o encanto. É como o maquiador de novela que capricha para a câmera não perceber a maquiagem. Na eleição, porém, o eleitor tem o direito de saber que há maquiagem ali.

No Clube dos Cisnes, estimamos, a título de exemplo ilustrativo baseado na nossa experiência com produção de conteúdo, que uma campanha municipal pequena consegue gerar dezenas de imagens e áudios por mês com IA gastando menos do que custaria uma única diária de equipe profissional tradicional. É justamente esse barateamento que espalha a tecnologia por candidaturas de todos os tamanhos, e não só pelas mais ricas.

Deepfake e IA sem rótulo são a mesma coisa?

Não, deepfake e IA sem rótulo não são a mesma coisa, e confundir os dois atrapalha quem quer se proteger. A IA sem rótulo é o uso permitido da tecnologia, só que sem o aviso que a lei exige. O deepfake é o conteúdo falso que coloca palavras ou atos na boca de alguém, e esse é proibido em qualquer situação.

Um exemplo deixa a diferença nítida. Se um candidato usa IA para criar o cenário de um santinho digital e não avisa, ele descumpre a regra de transparência. Se ele cria um vídeo em que um adversário aparece confessando um crime que nunca cometeu, ele comete algo mais grave, que é fabricar uma mentira com cara de prova. O TSE chegou a decidir especificamente sobre esse tema, como mostramos quando o tribunal votou se o deepfake seria proibido nas eleições de 2026.

O risco aumenta porque os dois problemas se misturam no mesmo feed. O eleitor recebe tudo junto, sem separação, e a enxurrada de conteúdo embaralha a cabeça. Quando falta o rótulo no material simples, fica mais fácil que o material perigoso passe batido no meio.

Como identificar um conteúdo gerado por IA no seu WhatsApp?

Para identificar um conteúdo gerado por IA, desconfie primeiro do que parece perfeito ou surpreendente demais. A tecnologia melhora rápido, mas ainda deixa pistas, e um olhar atento pega boa parte delas antes de você compartilhar.

Nas imagens, olhe as mãos, os dedos, dentes, óculos e textos ao fundo, que costumam sair tortos, derretidos ou com letras sem sentido. Nos áudios e vídeos, preste atenção em vozes com ritmo estranho, respiração que não encaixa e bocas que não acompanham as palavras. Esse mesmo cuidado em checar a origem do que chega vale para o seu dia a dia, como já explicamos ao falar de como a inteligência artificial muda sua busca na internet.

Depois das pistas visuais, vem a regra de ouro: procure a fonte. Se o candidato realmente disse aquilo, haverá registro em site de notícia, no perfil oficial ou numa entrevista. Se só existe aquele vídeo solto, rodando de grupo em grupo sem nenhuma origem confiável, trate como suspeito até provar o contrário.

Pense no trânsito. Você não atravessa a rua só porque o sinal de pedestre abriu, você também olha para os lados antes de pôr o pé na faixa. Com o conteúdo de campanha é igual: o fato de ter chegado no seu celular não é garantia de que é verdade. Olhe para os lados antes de acreditar e, principalmente, antes de repassar.

Quem ganha e quem perde quando a campanha esconde a IA?

Quando a campanha esconde o uso de IA, quem ganha é o candidato que fabrica uma imagem melhor do que a realidade, e quem perde é o eleitor, que decide o voto enganado. É uma troca desigual: um lado colhe voto, o outro arca com a conta.

Perde também a candidatura honesta, aquela que respeita o rótulo e mostra o que é artificial. Ela joga limpo e, no curto prazo, parece menos impressionante do que a adversária que maquia sem avisar. Sem fiscalização firme, a transparência vira desvantagem competitiva, e esse é o pior incentivo possível numa democracia.

No médio prazo, porém, todos perdem, inclusive quem trapaceia. Quando o eleitorado descobre que foi manipulado, a desconfiança se espalha e contamina a política inteira. As pessoas passam a duvidar até dos fatos verdadeiros, e a dúvida generalizada é o ambiente onde a desinformação prospera. Esse jogo entre alcance e credibilidade já apareceu quando mostramos que a IA nas eleições amplia campanhas, mas não garante vitória.

Como outros países lidam com IA nas eleições?

Outros países enfrentam o mesmo dilema do Brasil e, em geral, caminham para a mesma solução: exigir que o conteúdo político feito por IA seja identificado. A rotulagem obrigatória virou a resposta mais comum porque é simples de entender e ataca a raiz do problema, que é a falta de aviso.

A União Europeia aprovou regras amplas de inteligência artificial que incluem a obrigação de marcar conteúdo gerado ou manipulado por máquina, e vários estados dos Estados Unidos criaram leis mirando especificamente anúncios de campanha com IA e deepfakes eleitorais. O desenho varia de lugar para lugar, mas a lógica se repete no mundo todo.

Nesse retrato internacional, o Brasil não ficou para trás. Ao definir regra já em 2024 e proibir o deepfake eleitoral, o país se colocou entre os que agiram cedo. O desafio brasileiro, como o levantamento da Agência Brasil deixa claro, não é a ausência de lei, e sim fazer a lei pegar na prática, num país de dimensão continental e com a maioria da população informada por aplicativos de mensagem.

Transparência não é detalhe técnico: a leitura do Clube dos Cisnes

Na nossa leitura, o uso de IA sem identificação é menos um problema de tecnologia e mais um problema de confiança. A ferramenta é neutra. O que decide se ela ajuda ou destrói a eleição é a honestidade de quem aperta o botão, somada à firmeza de quem fiscaliza.

A inteligência artificial não ameaça a democracia por ser poderosa, mas por ser invisível: o perigo não está na máquina que cria, está no silêncio de quem usa e não avisa.

Nossa previsão é direta. Em 2026, a fiscalização não vai dar conta de checar peça por peça no ritmo em que a IA produz conteúdo, porque a máquina cria mais rápido do que qualquer tribunal julga. O resultado é que a primeira linha de defesa real será o próprio eleitor treinado para desconfiar, e não só a Justiça Eleitoral. A regra do TSE é necessária, mas chega sempre depois que o estrago começou.

Há aqui uma lição que atravessa a política e vai parar no balcão de qualquer negócio. No Clube dos Cisnes, atendemos com frequência pequenos comércios que, em exemplos ilustrativos da nossa rotina, passaram a usar IA para criar fotos de produto e textos de anúncio. O recado que damos é o mesmo da urna: usar IA é legítimo, esconder que usou é que destrói a confiança do cliente. A empresa que avisa com naturalidade sai na frente, porque transparência virou vantagem, não fraqueza. Quem quiser aprofundar esse ponto pode ler nossa reflexão sobre como ser original na era da inteligência artificial.

No fim, a pergunta que fica para 2026 não é se a IA vai entrar na campanha, porque ela já entrou. A pergunta é se o eleitor vai entrar na campanha sabendo disso.

Perguntas frequentes

É proibido candidato usar inteligência artificial na campanha de 2026?

Não, usar IA é permitido. O que o TSE exige é que o candidato informe de forma clara quando uma peça foi criada ou alterada por inteligência artificial. O que é proibido em qualquer situação é o deepfake, o vídeo ou áudio falso que simula alguém dizendo ou fazendo o que nunca fez.

O que acontece com o candidato que usa IA sem identificar?

Ele descumpre a regra de transparência do TSE e pode sofrer sanções. As consequências vão da retirada do conteúdo e aplicação de multa até, nos casos mais graves, a cassação do registro ou do mandato. A punição depende da gravidade e do alcance do conteúdo.

Como saber se um vídeo de campanha foi feito por IA?

Desconfie do que parece perfeito ou chocante demais. Olhe mãos, dentes, óculos e textos ao fundo em imagens, e verifique se a boca acompanha a voz em vídeos. A regra mais segura é procurar a fonte: se o candidato disse mesmo aquilo, haverá registro em sites de notícia ou canais oficiais, e não só um vídeo solto circulando em grupos.

Por que o uso de IA sem aviso é tão perigoso nas eleições?

Porque retira do eleitor a informação de que o conteúdo é fabricado, e isso leva a decidir o voto com base em algo que talvez nunca tenha acontecido. Além disso, o conteúdo sem rótulo alimenta a desinformação e corrói a confiança em tudo, até no material honesto, abrindo espaço para a manipulação.

Fontes

  1. Agência Brasil

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Tags: IA Clube dos Cisnes PME
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