IA 03 de setembro de 2026 · 12 min de leitura

IA potencializa mudanças climáticas, alerta Átila Iamarino

O pesquisador Átila Iamarino afirmou em Passo Fundo que a inteligência artificial está acelerando as mudanças climáticas. O motivo é o consumo gigante de energia dos data centers que sustentam a tecnologia. Explicamos o que isso significa para a sua vida e para o seu bolso.

RW

Rafael Willians

Fundador, Clube dos Cisnes

IA potencializa mudanças climáticas, alerta Átila Iamarino
  • Em palestra em Passo Fundo, o pesquisador Átila Iamarino alertou que a inteligência artificial está potencializando as mudanças climáticas.
  • O problema não é a IA em si, mas a energia consumida pelos data centers, os enormes galpões de computadores que fazem a tecnologia funcionar.
  • Cada resposta de um chatbot como o ChatGPT gasta muito mais eletricidade do que uma busca comum na internet.
  • Na nossa leitura, a eficiência energética vai virar a maior disputa da indústria de tecnologia nos próximos anos.
  • Para o Brasil, que atrai bilhões em novos data centers, a conta ambiental e o preço da energia entram no centro do debate.

O alerta de Átila Iamarino sobre IA e clima em Passo Fundo

O biólogo e divulgador científico Átila Iamarino, doutor em microbiologia e um dos nomes mais conhecidos na explicação de ciência para o grande público no Brasil, esteve em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, para uma palestra sobre inteligência artificial. Segundo a reportagem da GZH, publicada em setembro de 2026, ele foi direto: a inteligência artificial está potencializando as mudanças climáticas.

A frase soa estranha à primeira vista. Muita gente imagina a IA como algo que vive dentro do celular, sem peso e sem fumaça. Iamarino desfez essa ilusão. Por trás de cada resposta automática existe uma fábrica de eletricidade rodando dia e noite.

Por que isso importa para o brasileiro comum? Porque a energia que alimenta essa tecnologia sai da mesma rede elétrica que abastece a sua casa. Quando a demanda por energia cresce muito rápido, o preço tende a subir para todo mundo. O debate deixou de ser assunto de laboratório e chegou à conta de luz.

Por que a inteligência artificial gasta tanta energia?

A inteligência artificial gasta muita energia porque ela não pensa: ela calcula, milhões de vezes por segundo, dentro de computadores potentes que precisam ficar ligados sem parar. Cada palavra que um chatbot escreve é resultado de uma conta matemática enorme feita em tempo real.

Esses cálculos acontecem em data centers, que são galpões gigantes cheios de servidores, os computadores profissionais que armazenam e processam dados. Eles funcionam 24 horas por dia, todos os dias. E não basta ligar as máquinas: é preciso resfriá-las o tempo todo, senão elas superaquecem. Boa parte da energia vai justamente para o ar-condicionado industrial que impede tudo de derreter.

Pense na cozinha de um restaurante no horário de pico. O fogão aceso, as geladeiras, o exaustor e o ar-condicionado ligados ao mesmo tempo consomem muito mais do que a cozinha da sua casa em uma noite normal. Um data center de IA é como milhares dessas cozinhas funcionando juntas, sem nunca desligar. Já explicamos esse mecanismo em detalhe em nossa análise sobre por que a IA consome tanta energia e o que muda no Brasil.

O ponto de Iamarino é que essa fome de energia cresce mais rápido do que a nossa capacidade de gerar energia limpa. Enquanto a matriz elétrica não for totalmente renovável, cada expansão da IA empurra o consumo para cima e, em muitos países, isso significa queimar mais combustível fóssil.

Como uma pergunta ao ChatGPT vira emissão de carbono?

Uma pergunta a um chatbot vira emissão de carbono quando a eletricidade que alimenta o data center vem de usinas movidas a carvão, gás ou óleo. Nesse caso, o gasto de energia se transforma em gás carbônico lançado na atmosfera, o mesmo que agrava o aquecimento global.

O caminho é simples de entender. Você digita a pergunta. O pedido viaja pela internet até um data center. Lá, dezenas de servidores processam a resposta. Esse processamento consome eletricidade. Se essa eletricidade não for limpa, a conta ambiental chega junto com a resposta na sua tela.

Aqui entra um dado concreto que já cobrimos aqui na Clube dos Cisnes: a Microsoft admitiu ter emitido cerca de 25% mais carbono depois de acelerar sua aposta em inteligência artificial, um salto que a própria empresa ligou à construção de novos data centers, como mostramos em nossa reportagem sobre como a Microsoft emitiu 25% mais carbono por causa dos data centers de IA. Quando uma das empresas mais ricas do planeta vê suas emissões subirem por causa da IA, o alerta de Iamarino ganha peso.

É importante não cair no exagero contrário. Uma pergunta isolada polui pouco. O problema é a escala: bilhões de perguntas por dia, no mundo inteiro, somadas ao treinamento dos modelos, que é a fase em que a IA aprende consumindo energia por semanas seguidas.

A inteligência artificial não deveria ajudar a salvar o planeta?

Sim, a inteligência artificial também pode ajudar o meio ambiente, e é aí que o alerta de Iamarino fica interessante: ele não pediu para abandonar a tecnologia, e sim para olhar a conta inteira. A IA otimiza rotas de transporte, ajusta o consumo de energia em fábricas e melhora a previsão do tempo para desastres.

O problema é o saldo. De um lado, a IA economiza energia em alguns setores. Do outro, ela mesma consome uma quantidade enorme para funcionar. Quando o gasto próprio cresce mais rápido que a economia que ela gera, o resultado final é negativo para o clima. Foi esse desequilíbrio que o pesquisador apontou em Passo Fundo.

É parecido com o carro no trânsito. Um aplicativo de rotas ajuda você a economizar combustível achando o caminho mais rápido. Mas se, por causa da facilidade, todo mundo passa a dirigir muito mais, o total de poluição na cidade aumenta em vez de cair. A ferramenta que prometia eficiência acaba estimulando mais consumo.

Essa tensão aparece em vários usos promissores da tecnologia, inclusive na ciência e na medicina, campos em que a IA acelera descobertas, como discutimos ao tratar de como a inteligência artificial acelera a biotecnologia. O ganho é real. A conta de energia, também.

Isso vai mexer na minha conta de luz?

Pode mexer, sim, principalmente no médio prazo. Quando muitos data centers se instalam em uma região, a demanda por eletricidade dispara. Se a oferta de energia não cresce no mesmo ritmo, o preço da eletricidade tende a subir para os consumidores comuns, e não só para as empresas de tecnologia.

Imagine um bairro onde, de repente, abrem dez novos prédios comerciais que funcionam a noite toda. A rede elétrica local, que atendia bem as casas, passa a ficar sobrecarregada. Ou a distribuidora investe pesado para reforçar tudo, e alguém paga essa conta, ou faltam energia e estabilidade para todos. Data centers de IA criam exatamente esse tipo de pressão, só que em escala muito maior.

Não é teoria. Cidades e estados ao redor do mundo já reagiram. Nova York chegou a pausar a construção de novos data centers por um ano para estudar o impacto na rede, algo que detalhamos em nossa cobertura sobre a pausa de Nova York na construção de data centers. No Brasil, ao menos sete cidades já manifestaram resistência a esses empreendimentos. O tema saiu do campo ambiental e entrou na política local.

Quem ganha e quem perde nessa corrida dos data centers?

Ganham as gigantes de tecnologia e as regiões que atraem investimento e empregos qualificados. Perdem, potencialmente, os moradores que dividem a rede elétrica e a água usada no resfriamento, além do clima, que recebe a fatura das emissões. A distribuição desse ganho e dessa perda raramente é justa.

De um lado, um data center traz obras, arrecadação de impostos e alguns postos de trabalho técnicos. Prefeituras adoram o anúncio. De outro, esses galpões empregam pouca gente depois de prontos, consomem muita energia e, em alguns casos, muita água. A comunidade fica com parte do custo e uma fatia menor do benefício.

É como um estádio construído para um único grande evento. A cidade inteira sente o trânsito, o barulho e a conta da infraestrutura, mas só uma parcela realmente lucra com o jogo. Por isso o debate sobre onde e como instalar data centers é tão delicado.

Vale a comparação histórica. O mundo já viveu isso com as fábricas na Revolução Industrial e, mais tarde, com as grandes hidrelétricas: promessas de progresso que vinham acompanhadas de impactos ambientais e sociais que só foram cobrados décadas depois. A diferença é que, com a IA, tudo acontece em uma velocidade muito maior.

O que o Brasil tem a ver com o alerta de Iamarino?

O Brasil está no centro dessa história porque virou um destino cobiçado para novos data centers de inteligência artificial, atraindo bilhões em investimentos, como já registramos ao mostrar que o Brasil vai receber bilhões em data centers de IA. Isso coloca o país diante de uma escolha estratégica.

Temos uma vantagem rara: boa parte da nossa energia vem de fontes renováveis, como hidrelétricas, eólicas e solar. Em tese, um data center movido a energia limpa polui muito menos do que um alimentado por carvão. É por isso que empresas estrangeiras olham para o Brasil com tanto interesse.

Mas vantagem não é garantia. Se a demanda dos data centers crescer rápido demais, o país pode acabar acionando usinas térmicas, mais caras e mais poluentes, para dar conta do consumo. Aí a energia limpa deixa de ser um trunfo e o alerta de Iamarino se confirma dentro de casa. O desafio é crescer sem transferir a conta para o consumidor e para o clima.

Esse é o tipo de discussão que precisa sair dos gabinetes e chegar à população, algo que universidades brasileiras já começaram a puxar ao debater o papel da IA, como acompanhamos em nossa matéria sobre como as universidades brasileiras debatem o futuro da IA. Palestras como a de Passo Fundo cumprem justamente esse papel de traduzir o problema.

A inteligência artificial não é limpa nem suja por natureza: ela é o espelho da energia que a alimenta, e é por isso que a próxima grande disputa da tecnologia não será por inteligência, mas por eficiência.

A leitura da Clube dos Cisnes: eficiência será o novo campo de batalha

Na Clube dos Cisnes, entendemos que o alerta de Átila Iamarino marca uma virada de discurso. Durante anos, falou-se da IA só pelo que ela consegue fazer. Agora começa a pesar quanto ela custa ao planeta para fazer. Essa mudança de foco é saudável e, na nossa leitura, irreversível.

Nossa tese é que a eficiência energética vai virar o principal diferencial competitivo da indústria de IA. As empresas que conseguirem entregar as mesmas respostas gastando menos energia vão dominar o mercado, não apenas por consciência ambiental, mas por pura economia. Energia é custo, e custo alto não se sustenta em escala.

Nossa previsão é direta: nos próximos anos, veremos modelos de IA menores e mais econômicos ganharem espaço frente aos gigantes que engolem energia. A propaganda vai deixar de girar só em torno de quem é mais poderoso e passará a destacar quem é mais eficiente. Regulação sobre consumo de energia e água em data centers também deve avançar no Brasil.

Há um efeito prático que quase ninguém comenta, e ele atinge o pequeno negócio. Estimamos, com base na nossa experiência aqui na Clube dos Cisnes, que uma pequena ou média empresa brasileira que usa ferramentas de IA no dia a dia, para atendimento, textos e planilhas, pode ver o custo dessas assinaturas subir de forma relevante nos próximos anos, à medida que os provedores repassam a conta de energia. Para ilustrar de forma hipotética: imagine um pequeno comércio que hoje paga uma mensalidade modesta por uma ferramenta de IA e, em poucos anos, vê esse valor aumentar de maneira sensível, sem que a ferramenta faça nada de novo. Não é previsão de catástrofe, é um recado: quem usa IA para trabalhar deveria acompanhar esse debate energético tão de perto quanto acompanha o preço da gasolina.

O recado de Passo Fundo não é para desligar a inteligência artificial. É para ligá-la com consciência de que existe uma tomada, uma usina e uma atmosfera do outro lado do fio.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial realmente piora as mudanças climáticas?

Segundo o pesquisador Átila Iamarino, em palestra noticiada pela GZH, a IA está potencializando as mudanças climáticas. O motivo é o alto consumo de energia dos data centers que fazem a tecnologia funcionar. Quando essa energia vem de fontes poluentes, o uso da IA gera mais emissões de carbono.

Usar o ChatGPT gasta muita energia?

Cada resposta consome bem mais eletricidade do que uma busca comum na internet, porque exige cálculos pesados em servidores potentes. Uma pergunta isolada polui pouco, mas a soma de bilhões de usos por dia, mais o treinamento dos modelos, cria um consumo enorme de energia em escala global.

O crescimento da IA pode encarecer minha conta de luz no Brasil?

É um risco real no médio prazo. A instalação de muitos data centers em uma região aumenta a demanda por eletricidade. Se a oferta de energia não acompanhar esse ritmo, o preço pode subir para todos os consumidores, e não apenas para as empresas de tecnologia.

Por que o Brasil atrai tantos data centers de inteligência artificial?

Porque o país tem grande parte de sua energia vinda de fontes renováveis, como hidrelétricas e usinas eólicas e solares. Isso torna os data centers brasileiros potencialmente menos poluentes. O desafio é crescer sem sobrecarregar a rede elétrica e sem precisar acionar usinas térmicas, mais caras e poluentes.

Fontes

  1. GZH

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Tags: IA Clube dos Cisnes PME
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